Não tem como não traçar um paralelo entre Ozzy Osbourne e Keith Richards. Dois ícones do rock que a medicina não consegue explicar como ainda estão vivos. E já que eles lançaram recentemente as suas biografias, resolvi fazer um paralelo entre elas. Comecei pelo príncipe das trevas.
Depois de uma introdução (que não vou contar pra não estragar a surpresa de quem ainda vai ler o livro) vem a nota de rodapé: “As lembranças de outras pessoas sobre os eventos que estão neste livro podem ser diferentes das minhas. Não vou discutir com elas. (…) O que você vai ler aqui é o que consegui tirar da geléia que chamo de cérebro quando tentei lembrar a história da minha vida. Nada mais, nada menos…” Pronto. Já adorei o cara. Na verdade, sabia que ia adorar, mas não tão rápido.
Aí ele conta que adorava Beatles, que inventou o nome artístico ‘Ozzy Zig’, conta como conheceu Robert Plant, como sua banda Earth tocou no lugar do Jethro Tull, como ele não gosta quando falam que eles inventaram o heavy metal – “éramos apenas uma banda de blues que tinha decidido escrever música de medo.”
E parece que você consegue ouvir o próprio Ozzy Osbourne te falando coisas como “Eu era capaz de manter o tom e alcançar as notas mais agudas sem quebrar as janelas e sem que os gatos tentassem transar comigo, o que já era algo. E o que faltava em termos de técnica, eu completava com entusiasmo.” ou “Eu andava com uma velha camiseta de pijama com uma torneira presa a uma corrente como colar. A verdade é que não era fácil tentar se parecer com um rock star sem a porra do dinheiro. Você precisa usar a imaginação.”, sobre o começo da sua carreira na música.
Tem infinitas bizarrices, como o anão que ‘supostamente’ era enforcado no show, a banda jogando carne crua na platéia, a platéia que começou a levar animais (ou parte deles) para jogar no palco, o tal episódio do morcego, e por aí vai… Aliás, tem um episódio sensacional, que vou ter que transcrever aqui. Quando a banda estava se desintegrando, ele descontou a raiva nas galinhas: “Vou contar uma coisa: não é nada fácil pegar uma galinha, principalmente quando está ficando escuro e você não dormiu nas últimas 24 horas, além de estar doido de bebida e cocaína, sem falar que está usando um roupão e botas. Então, voltei pra casa, encontrei uma espada e saí com ela acima da cabeça, estilo samurai, ‘Morra, sua galinha maldita, morra!’, eu gritava.”
Ozzy também fala sobre o reality show The Osbournes, episódios com Frank Zappa, Bob Marley, Andy Warhol e tantas outras pessoas que (eu acho que) todo mundo gostaria de ter conhecido. Em algum momento aparece o seguinte depoimento: “Nunca vi Lemmy cair de bêbado. Mesmo depois de 20 ou 30 canecas. Não sei como ele faz. Não ficarei surpreso se ele conseguir viver mais do que eu e Keith Richards.” Muita doideira. E ele admite: “Eu realmente preciso parar de acordar em celas.”
Recomendo muito o livro ‘Eu sou Ozzy’. São 416 páginas que voam.
Aí parti pro livro que revelaria as maluquices do guitarrista dos Rolling Stones. Antes de mais nada, tem a seguinte frase, escrita com a sua própria letra: “This is the life. Believe it or not I haven’t forgotten any of it.” Ok. Here we go.
Começa já em 1975, quando a polícia dos EUA estava ‘caçando’ os Rolling Stones (talvez porque contratempos com a polícia aparecem de tempos em tempos no livro). Aí alguma coisa começou a me incomodar. “Fui para o fundo do avião e comecei a consumir drogas com mais empenho do que de costume.” Você consegue imaginar o Keith falando desse jeito? Aí eu percebi que o problema era a tradução, quando apareceu essa frase: “Você sai andando e lá estão os camaradas da velha escola.” E tudo vai se arrastando até uma ótima descrição de um julgamento com um juíz bêbado.
No 2º capítulo vem o “eu nasci em 1943 e blá blá blá”, mas tem várias histórias meio desconexas, o que me lembrou o livro ‘Crônicas Vol. I’ do Bob Dylan. Divagação. Começa a contar alguma coisa, aí parece que lembrou de outra, muda o assunto e nunca mais volta para o que estava falando antes.
Mas o cara é ótimo também. Adoro as descrições de ‘rebeldia’ aos 13 anos: “O que era ainda mais audacioso, num pé eu punha uma meia cor-de-rosa e, no outro, a verde. Isso realmente era assim UAU.” Depois de um tempo, a tradução até pega no tranco, com um deslize aqui e outro ali. Keith conta como foi a primeira vez em que ele ouviu Elvis (“Heartbreak Hotel”), fala sobre a banda que ele formou com Mick Jagger quando eles ainda eram moleques: Little Boy Blue and the Blue Boys – eles gravaram músicas do Chuck Berry e até “La Bamba”, num espanhol “embromation”.
Ele descreve os primeiros shows: pouco espaço, ganhando pouco ou nada, tentando descobrir as músicas que faziam mais sucesso com o público. Fala sobre o dia em que John e Paul deram ‘I wanna be your man’ para os Stones, sobre ele e Mick Jagger trancados na cozinha para compôr uma música pela primeira vez, sobre a evolução da tecnologia: “É muito bizarro como hoje em dia qualquer um pode fazer um disco, em qualquer lugar, e vender pela internet. Antigamente, era como saltar sobre a Lua. Não passava de um sonho.”
Tem detalhes bem específicos sobre acordes e notas, e ele disso: “Os leitores que preferirem podem pular essa parte do KEEF’S GUITAR WORKSHOP’, mas mesmo assim estou revelando estes segredos, que criaram os riffs com acordes abertos algum tempo depois, aquelas progressões que estão em ‘Jack Flash’ e ‘Gimme shelter’.”
Tem a história da composição e da gravação de faixas sensacionais como ‘Brown sugar’, ‘Satisfaction’ e ‘Wild horses’. Tem a sua relação com as drogas e também vários amigos invejáveis: John Lennon, Marlon Brando, B. B. King, os caras do The Greatful Dead… Keith Richards conta como foi o tempo em que a banda morou na França e gravou o disco ‘Exile on Main St.’ no porão da sua casa. E também tem declaração de amor à música: “Levitação é provavelmente a analogia mais próxima do que eu sinto – seja em ‘Jumpin Jack’, ‘Satisfaction’ ou ‘All down the line’. Perco a sensação de meus pés pisando o chão. Tem gente que me pergunta por que eu não paro. Só vou me aposentar quando bater as botas. Acho que eles não entendem o que isso me dá. Não é só pelo dinheiro ou por você. Faço isso por mim.” Ou seja, o livro do Keith também é bom, só que o texto não flui tão bem.
Falando de música, gosto muito mais de Rolling Stones do que de Black Sabbath e da carreira solo do Ozzy. Mas quando a coisa mudou para as biografias, pra mim foi Ozzy 1 X 0 Keith.
→ ‘Eu sou Ozzy’ – Ozzy Osbourne – Tradução: Marcelo Barbão – Editora Benvirá
→ ‘Vida’ – Keith Richards com James Fox – Tradução: Maria Silvia Mourão, Mário Fernandes e Renato Rezende – Editora Globo (e a foto da capa é do LaChapelle)
1 comment
Driks says:
September 23, 2012 at 2:57 pm (UTC 0 )
Que legal ter lido isso hoje. Terminei de ler essa semana o livro do Keith. Gostei muito, de verdade. Vou tentar ler agora o do Ozzy. Sinceramente, nunca gostei dele, mas tô numa fase de ler biografias. Vamos ver no que vai dar.. Tô achando interessante.