Pois é. Como todo mundo previa, mas fingia que não porque estava ocupado demais dando ibope aos vexames e barracos alheios, a cantora inglesa Amy Winehouse partiu dessa pra melhor, deixando de quebra um buraco na história musical desse início de século. Mas isso, até o mais morto dos vivos sabe. Afinal, o falecimento de um ícone no auge da carreira, com sucesso de público e crítica, é capaz de monopolizar o noticiário e as lamentações de botequim. O problema é que, no balanço do tempo, ele ofusca a despedida de gente com anos e anos de serviços prestados à boa música.
Mas, enfim, queira a moda midiática ou não, outros craques do som também penduraram seus instrumentos em 2011. Alguns, embora de relevância inquestionável, não ocuparam sequer um espaço comparável à piteira do cachimbo da Amy no obituário da imprensa mundial. Talvez porque a crista da onda já havia passado para eles ou nem mesmo batido em cheio como acontece no mundo pop. Talvez porque não tinham um rostinho apropriado e não investiram no visual certo na hora certa. Talvez porque evitaram escatologias e bafafás públicos ou, se os fizeram, não contavam com paparazzis sanguinários em seus calcanhares. Talvez por tudo ao mesmo tempo. Talvez por nada disso e tão somente porque cometeram o maior pecado para um grande artista: não morreram jovens.
Abaixo, como parte integrante da série “Melhores de 2011″ do The Glass Onion Blog, segue uma lista de músicos que vestiram o paletó de madeira no ano que se vai, seguidos de um breve resumo das principais razões pelas quais, na minha opinião, merecem uma derradeira salva de palmas antes que o ano acabe e o fantasma da Amy sobrevoe solitário as melações retrospectivas.
Lula Côrtes (Brasil: 1949 – 2011)
Artista pernambucano cuja presença nessa coluna seria improvável se, recentemente, a internet não tivesse tirado do limbo do ostracismo dois de seus álbuns malucos dos anos 70. Satwa (gravado com Lailson em 73), além de uma viagem de dois doidões – para o bem e para o mal –, tem o grande diferencial de ser o primeiro disco independente da música brasileira moderna (!), segundo o oráculo wikipédico. Já o duplo Paebirú (gravado com Zé Ramalho em 75) é o mais puro creme da (over)dose psicodélica nordestina. Fora do circuito e borbulhando experimentalismos, foi um um fracasso de vendas e, pra piorar, uma enchente afogou quase todas as cópias originais. Hoje, transformado em cult, esse LP virou ítem de colecionador, e é disputado a preço de ouro dentro e fora do país. Tem até banda por aí imitando o som dos caras. O mérito de Lula Côrtes foi ter experimentado antes. Antes mesmo das pessoas entenderem. Ou fingirem que entendem, porque tem esquisitice a dar com pau. Ouve só:
Joe Morello (EUA: 1928 – 2011)
Mesmo com problemas de visão, se tornou o batera de um dos mais emblemáticos e populares grupos de jazz da história, o The Dave Brubeck Quartet, famoso pelo clima cool e pelas divisões rítmicas inusitadas. Ele poderia estar nessa lista pelos mais de 60 discos dos mais diversos artistas que contam com seu talento nas baquetas, mas bastam apenas dois minutos e meio de uma música símbolo do quarteto de Dave Brubeck para provar o merecimento. Sim, é de Morello o indefectível solo de bateria na faixa de compassos tortos “Take Five”! Precisa de mais?
O solo do Morello (ao vivo):
Gil Scott-Heron (EUA: 1949 – 2011)
Grande músico, poeta e militante negro. É dele o clássico “The Revolution Will Not Be Televised” (1970), considerado um dos marcos iniciais do rap. Ainda que parte de suas músicas seja de poesia falada sobre bases da mais fina black music, o compositor levava meio a contragosto o título de precursor do hip hop. Talvez fosse o jeito dele de dizer que seu som era muito mais do que isso. E era. Seus discos são um emaranhado de funk, jazz, soul, r&b e até ritmos latinos da mais alta qualidade, especialmente durante a parceria com o tecladista e produtor da pesada Brian Jackson. Dizem que, durante um período entre os anos 80 e 90, Heron levou uma vida de excessos de fazer frente à própria Amy, mas é pelo conjunto da obra musical que ele é uma das grandes perdas da música em 2011. Seu último álbum é o soturno I’m New Here, lançado no ano passado. Bela despedida. Seguem várias fases de Heron pra embalar o resto do seu dia.
70:
78:
82 (ao vivo):
2010 (clipe):
Billy Blanco (Brasil: 1924 – 2011)
Letrista de canções antológicas desse Brasil varonil. Foi gravado por grandes cantores, dos vozeirões da Era do Rádio aos sussurantes da Bossa Nova, de Elis Regina a Jamelão, de Inezita Barroso a João Gilberto, de Elza Soares a… Hebe Camargo? Ok, deixa pra lá. Com Tom Jobim, compôs, entre outras, a belezura do tempo dos afonsinhos “Tereza da Praia” e a suíte “Sinfonia do Rio de Janeiro”. Com Baden Powell, fez a obra-prima “Samba Triste”, a primeira composição do violonista, ovacionada e regravada mundo afora. Pela vida, criou algumas letras sacaninhas que só vendo, como “Feiúra não é nada”, “Pano legal”, “O moço é” e tantas outras. São mais de 500 músicas no currículo e, como se não bastasse, ostentou pela vida toda um dos bigodes mais responsas do país.
Samba Triste:
Manuel Galbán (Cuba: 1931 – 2011)
Célebre guitarrista da era de ouro da música cubana. Participou do lendário grupo Los Zafiros e, após anos esquecido pelo regime de Fidel, foi “ressuscitado” – agora vai ser difícil acontecer de novo – pelo projeto Buena Vista Social Club, que recolocou nos palcos o que restava da nata musical do país. Tocou com gente do calibre de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Cachaíto Lopez e do guitarrista e produtor americano Ry Cooder, com quem gravou um disco bem bonitinho, chamado Mambo Sinuendo, em 2003.
Olha ele aí no Los Zafiros com sua guitarrinha:
Composição de Galbán:
David “Honeyboy” Edwards (EUA: 1915 – 2011)
O “garoto de mel” era o último representante do autêntico estilo acústico Delta Blues americano dos anos 20 e 30, aquele da guitarrinha chorada e dos versos viscerais que remetem ao profundo sofrimento negro. O cara chegou a tocar ao lado de, nada mais nada menos, Robert Johnson, o mais importante nome do blues de todos os tempos, cuja existência é cheia de mitos. Um deles diz que, portando uma garrafa de uísque e um violão, ele teria vendido a alma ao diabo numa encruzilhada no Mississipi em troca de um dom musical superior. O capeta é que teria deixado o violão dele um tom abaixo, conforme ouvimos nas gravações. Pois bem… Nosso amigo Honeyboy estava presente no dia em que mister Johnson tomou a dose do uísque envenenado que o levou à morte em 1938. Eu, hein!
Ao vivo:
Você pode até não concordar com a seleção para essa lista, mas diz aí se 2011 não proporcionou a maior farra lá do outro lado?