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E se John Maus estudasse na USP?

John Maus é um personagem. Meio avesso à onda pop da música, é verdade. Mas não deixa de ser um personagem. Um tipo daqueles que pensa muito bem antes de dizer uma coisa, tem opinião forte (e geralmente polêmica) e trilha seu caminho artístico sempre mostrando saber o que quer e onde pretende chegar, mesmo que ninguém entenda. Hoje, li uma notícia sobre ele no The Guardian on-line e, como outras lidas anteriormente, não faltou pano para a manga

O título dizia algo como: John Maus: “se para você a minha música soa como dos anos 80, você deve estar ouvindo a sua coluna vertebral medieval”, na tradução livre. Essa seria a resposta do americano nascido em Austin, estado de Minnesota, e formado pela CalArts a todos aqueles — e não são poucos — que dizem que sua música tem uma sonoridade, digamos, velha. O julgamento, segundo o compositor, errado, é resultado do abundante uso de sintetizadores com timbres sombrios e de harmonias apoiadas nos modos eclesiásticos, estrutura harmônica bastante usada em canções medievais e do Renascentismo — e fora de uso na música pop atual. Entretanto, Maus rebate sem dó: “Eu acho que synths e waveforms permitem uma complexidade sônica que vai além da palheta — como de cores, mas, nesse caso, de timbres — que estamos acostumados com as guitarras”.

Mas John Maus não se deteve só em analisar estrutural e harmonicamente a música que compõe. Como já é esperado de um tipo excêntrico, ele foi além. Falou de arte, comportamento, ideologia e, nas entrelinhas, preconceito. E foi justamente aí que me chamou a atenção.

Em um momento em que não só a sociedade brasileira, mas de todo o mundo, sofre com a intolerância (ao câncer do ex-presidente Lula ou às manifestações na USP, por exemplo), o preconceito (“analfabeto”, “baiano”, “maconheiro”, “playboy”, “vagabundo”, “viado”, “puta”) e a falta de responsabilidade social (dos bêbados no trânsito, dos motoboys suicidas, de quem ainda joga lixo na rua), o pós-graduando em filosofia política dá o seu recado através de sua música e sua atitude.

Cop Killer is the perfect way of putting over the idea that any worthwhile political or artistic agenda should be seeking an undoing of the situation as it stands. Whether the status quo is a political state or a musical language, the idea should be to kill or overthrow that. The song’s not about killing a human being, but about overcoming inhumanity; destroying the machinery that turns us toward an end other than ourselves

Foi assim que Maus descreveu uma das canções do seu último álbum, We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves, lançado em junho deste ano, pelas Ribbon Music (EUA) e Upset the Rhythm (UK).

Ou seja, enquanto houver morosidade e comodismo, nem a sociedade, nem as artes evoluirão. É preciso “destruir a máquina que nos direciona a um fim que não é em nós mesmos”, prega. O caminho é longo. Ele sabe. Mas não abre mão da sua incompreensibilidade (ou não) por isso. Talvez seja um erro, talvez não. Mas além de boa música — sim, eu acho bem boa, apesar de também me remeter aos anos 80 e, às vezes, aos 70 –, Maus usa toda a sua energia para nos mostrar que, sim, é possível mudar o mundo. Como? Eis a resposta:

No art stands a chance unless we struggle, unless we make some kind of effort to think.

 

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