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Sobre uísque e orixás – o legado afro-sambístico de Vina e Baden

Dois seres humanos trancafiados num apartamento durante três meses no esquema open bar. Não, isso não é uma chamada de reality show barraqueiro. Primeiro, pelos sujeitos: um poeta e um violonista. Os melhores, há quem diga. Segundo, pela birita: 20 caixas de uísque. Do melhor, há quem brinde.

Pelo menos é isso que reza a lenda da criação de uma das maiores e mais inventivas obras da história da música brasileira, descrita  na bíblia bossa-novista Chega de Saudade, de Ruy Castro. 90 dias e 240 garrafas de Haig’s depois, o que dá mais de duas ampolas e meia por dia, fora uns prováveis e não contabilizados shots de gim “pra abrir o apetite”, Baden Powell e Vinícius de Moraes tinham 25 novas canções de valor inestimável e dois fígados em petição de miséria. Tanto que, dali, o Poetinha partiu direto pra mais uma de suas muitas autointernações numa clínica de desintoxicação.

O ano era 1962 e, entre as composições, estava ali uma leva de sons que passeavam por mares nunca dantes navegados. Não era propriamente samba. Tampouco bossa-nova, como insistem os apressados. Era um capítulo à parte. Harmonias circulares e ilusoriamente simples, muitas vezes com um quê de cantiga, que além de todo o amor e dor que escorriam como cachoeiras da caneta de Vina, evocavam os batuques e as mais respeitáveis entidades dos terreiros de candomblé desse mundão de meus Deus. No caso, de olodumaré! Eram Os Afro-sambas, sentenciou o poeta. E quem sou eu pra discordar? Nem breaco!

Aqui, um vídeo clássico da vibe da época:

A gravação do LP veio só em 66, também chafurdada no uísque, pra influenciar geração após geração. Enfim a temática dos orixás e os instrumentos dos rituais das religiões africanas saíam do universo marginal e caíam, de vez, na cabeça e na cabaça da eme pê bê. Os anos passam e o caruru harmônico e melódico criado por Baden é incessantemente revisitado por músicos e intérpretes doidos pela combinação de erudição e exotismo. O próprio mestre das cordas voltaria ao estúdio 24 anos depois, em 1990, para regravar as faixas originais e acrescentar mais três pérolas, dessa vez, com menos álcool no sangue e já sem o Vina. “Bobagem!”, eu diria se tivesse autoridade. Mas pra Baden, mais do que para o seu parceiro poeta, os afro-sambas representavam o carimbo mais viçoso da genialidade de toda sua obra.

Prova dessa riqueza musical são as zilhões de versões das canções do disco de 66, muitas vezes somente instrumentais, por todos os cantos do planeta. Abaixo, uma versão toda bonita de ‘Canto de Xangô’ por um duo gringo que, a notar pelos vídeos adjacentes no YouTube, são fãs de carteirinha do Baden afro-sambístico.

No Brasil, saíram cinco discos dedicados exclusivamente a reler os afro-sambas, incluindo o do Baden de 90. Cada um tem uma proposta estética diferente, o que só comprova a riqueza do universo criado pelos bebuns de outrora. Segue a lista com alguns respectivos aperitivos encontrados na internet. Dá até dó ter tão pouca coisa no YouTube. Então, pestica e vai atrás do resto, sem delongas!

Baden Powell – Os Afro-Sambas (1990): mesmo sem Vinícius, a qualidade da gravação dá um banho na de 66, com arranjos elevados à máxima potência. Entre as novidades, a faixa ‘Abertura’, um medley afro-sambístico “para iniciados” que vem tinindo, tinindo, e apertando o coração dos reles mortais.

 

Mônica Salmaso e Paulo Bellinati – Afro-sambas (1995): versões “voz e violão” com apuro técnico e lirismo. Pra fechar os olhos e abrir os ouvidos. Só não vale dormir.

 

Virgínia Rodrigues – Mares Profundos (2004): Negra e baiana. Questão de honra alguém com essas características interpretar o estilo inspirado no candomblé.

 

Mario Adnet e Philippe Baden Powell – AfroSambaJazz (2009): o arranjador e violonista se junto ao pianista e “filho do hômi” pra dar uma defumada na sonzeira. Inclui afro-sambas inéditos encontrados nas tralhas do Baden e conta com um timaço de músicos, que eu apelidaria, num trocadilho besta, de ‘Big Um Band’.

 

Coral UNIFESP – Os Afro-Sambas (2009): do terreiro ao recital. Entre altos e baixos, belos sopranos, barítonos e contraltos. Só encontrei material de apresentações ao vivo. Vale procurar as versões de estúdio, mais bem acabadinhas.

Ouvi tanto afro-samba pra escrever esse texto que tô que tô até meio embriagado. E suncê, mizifio?

Tintim e saravá!

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